É verdade, pessoal. Nós fizemos uma peça educativa. Com mensagem estampada, mastigada e politicamente correta. Tudo aquilo que eu sempre evitei – produção acelerada, poucos ensaios, temas óbvios e escancarados, tom professoral, visão maniqueísta, etc etc – entrou nesse trabalho, sem pudores. E quer saber de uma coisa? Foi legal pra caramba.
Eu e alguns atores da Sarcástica – Pri, Sofia, Ste, Carinho, May, Bina e o nosso jovem reforço Luís – topamos a difícil (não tãaaao difícil) missão de criar uma curta cena sobre drogas (era pra ter bulliyng também, mas não nos empenhamos muito nessa parte) para a abertura de uma palestra ministrada num colégio de Limeira.
Ensaiamos umas três ou quatro vezes. O último ensaio nem teve o Luís (ator principal), o que me lembra de nossos últimos ensaios de A Vida é Sonho (né, Du Bassetti?). Tudo correu bem e finalmente chegou o dia de nossa apresentação. A Sofia, responsável pelos nossos objetos de cena, trouxe uma seringa rosa e uns pacotinhos enrolados (pareciam balas ou então bombinhas de festa junina) para fazer o papel das drogas. Aí você me pergunta: que droga vem enrolada num papel de bala e depois é injetada com uma seringa rosa na veia? Vai saber...
Como o Luís faltou, ensaiamos sem ele. A Pri fez o papel do drogado Moacir – personagem querido por todos –, a Sofia era a mãe-muda que ficava a peça inteira lendo uma carta (Sofia? Muda? Sim, foi de propósito...), a Carinho fazia a namorada do Felipe (Felipe era o Luís), a Mayara a médica, a Bina fazia a luz (que luz?) e a Ste era a elegante mulher que vendia drogas para os meninos indefesos do bairro. Cada personagem escolhido de acordo com o perfil dos atores.
Olha pra frente, Daniel.
Pouco antes de começar o ensaio, a primeira grande surpresa do dia: "Que horas vai chegar o ônibus?", perguntou um; "A Van vai deixar a gente em casa?", questionou outro. Achei que estava na hora de dizer a verdade: "Pessoal", falei, "A Van na verdade é um Uno Prata." Sim, um Uno prata. O meu carro. Eles tentaram, mas não conseguiram esconder a cara de decepção. Como colocar seis atores, um iluminador e mais um diretor dentro de um carro? Alguns pensaram em desistir, mas já era tarde demais.
O tempo passava e, enquanto o ator principal não chegava (básico), ficamos todos trancafiados em minha sala conversando sobre aulas de direção, religião e o namoro da Bina. Na verdade, todos estavam tensos e nervosos porque a comida ainda não tinha chegado. Carinho se recusou a ensaiar se a refeição não aparecesse. Tentei convencer os meus atores de que a comida era apenas um detalhe daquela grande aventura; e que, quanto maior a fome, mais saboroso seria o alimento depois. Ninguém deu bola pra mim.
A May já começava a passar mal e a Ste estava praticamente desnutrida quando... ouvimos passos no corredor. A porta de abriu! A COMIDA?? Não. O Luís. Beleza, já temos um ator principal. Deixamos o Luís decorando o texto e continuamos nosso papo animado. As esperanças estavam quase se esgotando quando nosso rango chegou. E estava bom demais. Minha teoria estava certa. Ok, todos de barriga cheia e devidamente ensaiados. Hora de encarar nosso destino.
Ch-ch-ch-ch Cherry Bomb!!!
A aventura prosseguia. Todos muito animados. Conforme nos aproximávamos do local de apresentação, percebi que a coragem de meu elenco fraquejou por alguns instantes. Tá, eu admito, não era o lugar mais acolhedor do mundo, mas tinha lá suas qualidades. Chegamos até a ver uma garota sentada na calçada com um notebook do Corinthians (é sério). Estacionei num local que considerei seguro e começamos a preparar o desembarque. Por um segundo, Pri quase teve um ataque fulminante do coração com uma estranha criatura que apareceu na janela, mas era só a Sofia. Pegadinha.
Fomos muito bem recepcionados no portão da escola por um curioso grupo de jovens que aguardava ansioso a apresentação da nossa trupe. Uma garota deu um grito bravo na direção da Bina, mas quando percebeu que se tratava de um membro da Sarcástica, permitiu a nossa entrada. Todos nós fomos conduzidos até o palco.
A alegria contagiante do elenco.
Minutos depois, já no camarim, fizemos uma última passagem do espetáculo. Achei que era uma boa hora para gravar o CD com a trilha da peça. Nosso grande Luís tirava suas dúvidas com o texto e a Bina se concentrava nos blecautes e focos de cada cena. O ensaio correu tranquilo e foi interrompido uma única vez por uma tiazinha estranha que invadiu nossa sala perguntando porque entramos pelo portão X e não pelo portão Y. Algo assim. Ela foi embora depois de dar um sorriso esquisito. Não entendi.
Chegou o momento que todos esperavam. Os atores, com seus figurinos e adereços, agora organizavam o palco para o espetáculo que se aproximava. A noite prometia. Pedi para que o rapaz da organização anunciasse ao público uma informação importante: os atores não utilizariam microfone e, portanto, a platéia deveria fazer silêncio para poder ouvi-los. O rapaz me olhou meio incrédulo. Meia dúzia de moleques falando sem microfone, numa quadra aberta, para uma multidão de 59845985 pessoas? Ele fez uma cara de "não vai dar certo", ou algo parecido...
No camarim.
Quando a peça começou, por um momento, cheguei a pensar que o rapaz estava certo. A platéia estava cheia de trutas falantes, meninos risonhos e figurões engraçadinhos. O povo não calava a boca. Mas bastaram apenas dois minutos de cena para conquistarmos o silêncio do público. Nem precisou gritar tanto. Todos riram com o Luís cantando. Ste incorporou a vilã. Moacir arrasou. Sofia e May não ficaram pra trás e Carinho desafiou as leis da inércia quando, ao tomar um empurrão na testa, tombou pra frente (se tombasse pra trás caía do palco). No momento mais bizarro da noite, durante a apresentação, uma luz estranha acendeu na cara do público que começou a reclamar. Calma, não foi a Bina. Não foi mesmo, estou de prova. Ninguém sabe quem foi.
No fim deu tudo certo. Fomos aplaudidos e todos ficaram bastante satisfeitos com o trabalho. Como estava ficando tarde, saímos antes de começar a palestra. Com a tranquilidade que Deus me deu, e dentro dos limites de velocidade, conduzi meu carro prudentemente no caminho de volta e deixei todos em suas respectivas casas. A Ste parou em uma casa cinza, a Sofia numa casa vermelha e a Mayara numa casa verde (Verde? Onde?). Por fim, a Pri – que mora no mesmo maravilhoso condomínio que eu – ainda deu uma passadinha lá em casa para matar as saudades do nobre Dudu, que lá nos aguardava, ansioso, esperando o relatório completo de nossa aventura.
Brincadeiras à parte, foi muito bacana. Fazer o trivial, às vezes, tem seus méritos. Se não pelo trabalho, quem sabe pela experiência. Espero que essa experiência se repita mais vezes.